Dec 11, 2008

Respeitado e querido pelos protetores de animais, Peter Singer nasceu em Melbourne, Austrália, em 1946. Ele já lecionou em universidades renomadas, como a de Oxford. Desde 1999 trabalha como professor de Bioética na Universidade de Princeton.
Ele se tornou internacionalmente conhecido depois de publicar o livro “Libertação Animal”, apesar de já ter escrito diversas obras que são hoje referência para estudiosos e o público geral, incluindo um artigo sobre ética na atual edição da Enciclopédia Britânica. Seu trabalho já foi traduzido para mais de 20 idiomas.
Esse senhor casado e pai de três filhas conseguiu abrir um espaço em sua agenda lotada para dar uma entrevista exclusiva à WSPA Brasil.
WSPA Brasil- Em 2009 se comemora os 200 anos do nascimento da primeira organização de proteção animal. Qual é sua avaliação sobre a evolução do movimento de proteção animal nesse período?
Peter Singer - O progresso tem sido lento, mas ainda assim é muito significativo. Quando as primeiras leis para proteger os animais contra maus-tratos foram propostas no parlamento britânico, seus membros gargalharam diante da simples idéia de se proteger animais. Agora, leis contra maus-tratos são vistas como parte de toda sociedade civilizada, e muitas pessoas concordam que animais têm direitos, ou que devem receber consideração equivalente à que se dá aos humanos.
WSPA Brasil- Na sua opinião, quais são as maiores conquistas dos movimentos de proteção animal?
PS - As leis de abate humanitário foram uma grande conquista, sem dúvida. Mais recentemente, o movimento de proteção animal forçou mudanças significativas nas práticas da pecuária industrial que afetam centenas de milhões de galinhas em bateria, assim como suínos e bezerros criados de forma intensiva. Recentemente, em novembro, a Califórnia votou para que todos os animais de produção tenham necessariamente espaço para poderem se virar livremente. Só essa decisão irá prover melhores condições para 19 milhões de galinhas. São conquistas muito significativas.
WSPA Brasil- Qual você diria ser o próximo desafio mundial para os protetores de animais?
PS - As condições dos animais estão melhorando um pouco na Europa, na América do Norte, na Austrália e em uns poucos países. Mas em outros países, especialmente na Ásia, conforme mais pessoas passam a pertencer à classe média, elas vão demandando mais carne, o que significa mais pecuária industrial. O maior desafio mundial é reverter esse desenvolvimento e convencer as pessoas de que uma dieta repleta de carne é ruim para a saúde delas, ruim para o meio ambiente e ruim para os animais.
WSPA Brasil- No Brasil e em outros países, o movimento de proteção animal está dividio em bem-estaristas, abolicionistas e outros “istas”. Por que há tantas rivalidades dentro do mesmo movimento? Como essas diferentes vertentes dentro de um mesmo movimento podem trabalhar juntas, em termos mundiais, para o bem dos animais?
PS - Parece-me estranho que no Brasil, onde o movimento de proteção animal não é tão forte, ele ainda seja enfraquecido por divisões. Espero que as pessoas vejam que os animais não podem esperar pela revolução vegana, pois precisam de mudanças mais imediatas. Nos Estados Unidos, o movimento vem trabalhando de forma unida nos últimos trinta anos, melhor do que em qualquer outra época. A Humane Society of the United States (HSUS), Farm Sanctuary, People for the Ethical Treatment of Animals (PETA), todas estão trabalhando numa mesma direção, focando a pecuária industrial, onde ocorre a maior concentração de sofrimento animal. Por isso essas organizações têm sido tão bem-sucedidas, como no caso do recente referendo na Califórnia. E até mesmo grupos como Vegan Outreach, que se empenha em divulgar o veganismo, não ataca os demais grupos. Os poucos extremistas foram se tornando completamente irrelevantes.
WSPA Brasil- Você acredita que o bem-estar animal é um fim em si mesmo ou apenas um passo em direção à libertação animal?
PS - Ele é ambos. O bem-estar animal é intrinsecamente desejável, o que significa que ele é um fim em si mesmo, mas também acredito que ele é um passo no caminho da libertação animal.
WSPA Brasil- Existem maus-tratos evidentes em certas áreas, como o uso de animais para entretenimento. Embora o uso de animais em circos seja proibido em 5 estados brasileiros, por exemplo, ainda não existe uma proibição federal nesse sentido. Você acha que essas mudanças urgentes dependem apenas dos políticos? Como o cidadão comum pode ajudar? Como o público pode ser ouvido a respeito dessa questão?
PS - Fazendo manifestações nas imediações dos circos, distribuindo panfletos que descrevam os maus-tratos e pedindo às pessoas para boicotar os circos. Além disso, pedindo aos prefeitos e governadores que não permitam circos que usem animais em suas apresentações.
WSPA Brasil - A WSPA é a maior federação de organizações de proteção animal do mundo, com mais de 950 afiliadas em 155 países. Que mensagem você daria para todas essas organizações espalhadas pelo mundo?
PS - Estamos lutando pelo bem de dezenas de bilhões de animais no mundo. Mas estamos fazendo progressos. Um dia, se todos nós continuarmos trabalhando duro pela causa, poremos fim a este vasto universo de sofrimento que nós, humanos, infligimos aos animais.
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