Relatório alerta para danos da pecuária industrial intensiva

Dec 5, 2008

O relatório Eating our Future aponta as conseqüências da pecuária industrial intensiva.

A Sociedade Mundial de Proteção Animal - WSPA lançou em Londres, no dia 25 de novembro, o relatório Eating our Future: the environmental impact of industrial animal agriculture (Comendo Nosso Futuro: o Impacto Ambiental da Pecuária Industrial).

O relatório é um alerta aos 155 países onde a WSPA está presente, alguns deles produtores, mas principalmente aos países em desenvolvimento que ainda não têm uma política de bem-estar animal em sua agenda. Ele detalha como a pecuária industrial contribui para as crises ambiental, econômica e social, que atualmente afetam países desenvolvidos e em desenvolvimento, e pede uma mudança para modelos de produção humanitários e sustentáveis. O relatório levanta os erros cometidos no passado e aponta novos rumos para a criação de animais com bem-estar.

Em 2006, o relatório Livestock’s Long Shadow, publicado pela FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação), afirmou que a “produção mundial de carne deve mais que dobrar, passando de 229 milhões de toneladas em 1999/2001 para 465 milhões de toneladas em 2050, ao passo que a produção de leite crescerá de 580 para 1043 toneladas”. Já Eating our Future analisa o impacto desse crescimento e ressalta a necessidade de se substituir essa produção, assim que possível, por métodos sustentáveis e que incluam o bem-estar animal. O relatório também pede políticas de governo nesse sentido, como vem sendo feito no Brasil, onde o bem-estar animal já começou a fazer parte da agenda do governo e dos produtores.

– A tendência atual da produção animal é insustentável. O custo oculto da pecuária industrial intensiva é bem maior daquele que o planeta é capaz de agüentar –, avalia o Dr. Michael Appleby, autor do relatório.

O relatório é dirigido a organizações intergovernamentais como a ONU, a governos de diversos países e às indústrias de suprimentos alimentícios para incentivá-los a:

  • Desenvolver políticas sustentáveis de suprimento alimentar
    Incluir o bem-estar animal em todos os debates sobre pecuária e mudança climática.

  • Desenvolver mecanismos para diminuir e reverter o crescimento na produção de carne e leite por métodos intensivos, além de incentivar produtores a produzir em criações sustentáveis (por exemplo, ao desenvolver mercados de valor agregado para métodos com bem-estar).

  • Parar de financiar métodos intensivos de produção e priorizar mecanismos econômicos para apoiar a produção humanitária sustentável.

  • Mudar a produção animal de sistemas intensivos para modelos humanitários e ambientalmente sustentáveis.

Bem-estar animal no mundo e no Brasil

O relatório destaca a situação atual da produção intensiva no mundo e alerta para os riscos da escalada deste modelo, principalmente por países que não têm condições de criação favoráveis ao bem-estar animal.  No Brasil a WSPA vê o início da mudança neste modelo e reconhece o esforço do governo brasileiro e dos produtores para implantar o bem-estar animal à produção:

– As condições brasileiras de criação são extremamente favoráveis à incorporação das práticas de bem-estar aos animais. Com algumas melhorias, este é um modelo que pode levar o Brasil a liderar a produção sustentável mundial –, diz Leah Garcés, Diretora de Programas da WSPA International.

No Brasil, a WSPA trabalha com colaboradores na área agroindustrial, apoiando a capacitação das pessoas envolvidas na criação e no manejo, e fornecendo informação para que o bem-estar animal seja respeitado e esteja presente na lida diária com os animais. Em visita ao Brasil, o Diretor da FAI – Food Animal Initiative, Roland Bonney, que administra o programa da fazenda-modelo da WSPA em Oxford, na Inglaterra, concluiu:

– O clima no Brasil, que permite o uso de galpões abertos com espaço para as aves, conduz à criação com bem-estar e cria a oportunidade para que os produtores brasileiros de aves sejam não só os maiores exportadores de carne de aves, como os melhores criadores do mundo.

O setor produtivo brasileiro vê com bons olhos a inclusão do bem-estar na criação porque reconhece a tendência mundial dos consumidores na busca por produtos de animais que tenham sido criados em condições que atendam o bem-estar. Pesquisas de opinião com consumidores na Europa, no Brasil, na Argentina e na China revelam a mesma tendência: o consumidor cada vez mais rejeita produtos de origem animal produzidos no sistema intensivo sem respeito ao bem-estar. E está cada vez mais disposto a pagar mais por produtos de origem animal com garantia de uma boa criação.

A WSPA acredita que iniciativas importantes têm sido tomadas no Brasil para diminuir os sistemas de criação intensiva substituindo-os pelos sistemas sustentáveis que consideram o bem-estar animal. O Brasil lidera a exportação de carnes e produtos de origem animal em vários setores e a indústria brasileira exportadora está sob constante monitoramento dos auditores internacionais que avaliam fazendas e plantas de frigoríficos, onde busca-se importar e remunerar melhor a compra de produtos de origem animal que foram criados e manejados em condições de  bem-estar.

Mas as melhorias na criação não estão ligadas apenas ao setor exportador.  O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) vem liderando o setor produtivo promovendo essa mudança. Na ação mais recente, o MAPA publicou a Instrução Normativa 56, onde recomenda ao setor a adesão aos sistemas de bem-estar na criação animal, levando em conta todos os requisitos que proporcionam ao animal boas condições de criação. As recomendações buscam evitar o sofrimento animal, as práticas cruéis e os maus tratos que se traduzem para os produtores em melhor ambiente de trabalho e menores perdas econômicas na venda do produto final.

O Brasil participa ativamente das discussões sobre a implantação de sistemas de bem-estar animal nos fóruns internacionais. Esteve presente no Seminário Internacional sobre Bem-Estar de Animais de Produção, realizado na sede da Comissão Européia, em Bruxelas, assim como em negociações sobre o tema com a Organização Mundial do Comércio – OMC e com a Organização Mundial de Saúde Animal – OIE, que teve sua última reunião na cidade do Cairo, no Egito, onde o tema foi incluído na pauta principal.

Para cooperar com as mudanças que trarão melhorias aos sistemas de criação, a WSPA está implantando no Brasil o projeto “Fazenda Modelo em Bem-Estar Animal”, na cidade de Jaboticabal, SP, em convênio com o grupo ETCO da Faculdade de Veterinária da UNESP-Jaboticabal e com a FAI – Food Animal Initiative, a mesma organização que dirige o projeto em Oxford, no Reino Unido. O projeto “Fazenda Modelo” busca demonstrar que sistemas de criação com bem-estar são viáveis e trazem benefícios aos animais e aos produtores. E que eles causam menos danos aos animais, ao homem e ao ambiente. Por acreditar que o Brasil lidera hoje no mundo a mudança rumo a melhores condições para os animais, a WSPA vem apoiando iniciativas do governo e do setor privado para que essas mudanças cheguem o mais rápido possível aos animais e aos produtores.

Bem-estar animal na ONU

No dia 10 de novembro de 2008 o G77 (bloco de 130 nações que reúne a maioria dos países em desenvolvimento) realizou uma reunião em nível de embaixadores para uma apresentação sobre as questões de aspecto global que envolvem o bem-estar animal.  E como ele pode contribuir para a sustentabilidade do planeta e permeia as chamadas “Metas do Milênio” estabelecidas pela ONU.

Pela primeira vez uma organização de bem-estar animal teve a oportunidade de se dirigir a uma reunião oficial de delegados da ONU, a convite de um dos países membro, a missão permanente de Seychelles. A reunião aconteceu num dos plenários da  sede da ONU, em Nova York. Uma delegação da WSPA e um representante do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento do Brasil ressaltaram a necessidade de se reconhecer o bem-estar animal como um componente essencial das agendas humanitária, ambiental e de desenvolvimento nas Nações Unidas.

Para saber mais sobre esse encontro, clique aqui. >>

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