Mar 17, 2009

Antes a postura fria e insensível era uma forma de evitar o próprio sofrimento. Essa era a realidade vivida pelos funcionários dos Centros de Controle de Zoonoses (CCZs) antes de conhecer e participar do Curso de Formação de Oficiais de Controle Animal (FOCA).
Ao todo, 16 cursos já foram realizados em cerca de 190 cidades brasileiras e mais de 1.000 oficias foram capacitados. O resultado não se restringe aos números, mas está também na mudança de comportamento desses funcionários. Esse é exatamente o propósito do curso FOCA: despertar a sensibilidade humana e assim resgatar nas pessoas o afeto, a esperança e o respeito à vida.
O curso já percorreu diferentes municípios, como Curitiba, Manaus e Parintis, além de estados como São Paulo, Pernambuco, Espírito Santo, Minas Gerais e Paraná. Em 2008, o CCZ de Guarulhos em São Paulo, criou a profissão de Oficial de Controle Animal. Para a seleção de novos funcionários foi aberto concurso e os participantes tiveram que fazer provas práticas e teóricas sobre o manejo etológico. Nesse tipo de manejo leva-se em consideração o comportamento natural de cada espécie, além do comportamento do animal no momento da abordagem na rua e no canil. A criação da profissão representa uma evolução, já que o agente de controle de zoonoses sempre foi estigmatizada de forma negativa. O reconhecimento da profissão faz com que ela seja valorizada pela sociedade.
Alguns dos resultados imediatos do curso em Manaus e em Parintins foram a extinção do uso da câmara de gás e eletrocussão e a adoção de programas de esterilização e adoção.
No Espírito Santo, logo na primeira semana após o FOCA, foi realizada a “1ª Feira de Adoção” pelo CCZ do município de Serra. Atualmente, as veterinárias do CCZ dão orientação e sempre que possível realizam gratuitamente o tratamento de animais, nos casos em que os donos não têm condições financeiras para tratá-los. Essa atitude permite que o número de animais que são encaminhados para o CCZ pela falta de condições financeiras de seus donos diminua consideravelmente.
O município de Cariacica, também no Espírito Santo, após a realização do FOCA obteve aprovação para a construção de um centro cirúrgico e a reforma dos canis e gatis.
No município de Nova Guataporanga, uma oficial de controle animal usou todo o aprendizado para uma ação inédita na cidade. Ela conseguiu parar um caminhão que carregava mais de 300 galinhas que estavam amontoadas nas caixas e seriam vendidas nas ruas da cidade. A ação contou com o apoio da policia militar e o motorista foi autuado juntamente com o fornecedor das aves. Os animais estavam na estrada há mais de 4 dias sem água e comida. Esses fatores, atrelados ao forte calor, contribuíram para que muitos deles morressem antes de chegar ao seu destino final. Depois de avaliados por uma veterinária do estado, foi constatado que as galinhas estavam doentes e elas tiveram que ser encaminhadas para um abate humanitário na cidade.
No município de Itajai, SC, uma das veterinárias que participou do FOCA resolveu repassar os ensinamentos adquiridos durante o curso treinando outros funcionários. O resultado imediato foi a adoção dos métodos humanitários de retirada e manejo dos animais de rua. Além disso, após o curso foi implantado o enriquecimento ambiental para os animais do Canil Municipal.
De acordo com a Secretaria de Educação de Ouro Verde, a realização do curso proporcionou uma mudança de comportamento da população em relação à equipe de zoonoses. Tal mudança foi comprovada depois do resgate de um cão muito agressivo por um funcionário do Canil Municipal. Ao contrário do que era feito antes, o funcionário se aproximou do cão com tranquilidade, fez a contenção e o encaminhou sem violência para o transporte. O modo humanitário como o cão foi tratado rendeu muitos aplausos e o reconhecimento do trabalho da equipe de zoonoses.
Nos municípios de Mogi das Cruzes (SP) e no de Maringá (PR), os oficiais foram convidados a ensinar as técnicas de manejo e contenção de cães e gatos para os bombeiros, já que eles também precisam realizar esse tipo de ação em muitos casos.
Para a Gerente de Programas Veterinários da WSPA Brasil, Mônica Almeida, o curso FOCA permite que os veterinários e os funcionários que trabalham diretamente com o controle populacional de cães e gatos tenham uma nova percepção sobre o processo de captura-eliminação.
No último dia de curso os funcionários têm a oportunidade de expor os seus sentimentos e manifestar as suas opiniões sobre a experiência que viveram durante a semana.
— Muitos relatam que o curso despertou neles a sensibilidade que estava adormecida durante todo esse tempo em que desempenhavam o trabalho de forma mecânica. Por desconhecerem as técnicas do manejo etológico e o comportamento de cães e gatos, os animais acabavam sendo tratados por eles como objetos. Muitos se sentiam mal e até depressivos por terem que sacrificar os animais. Agora eles entendem que essas criaturas indefesas são seres vivos e que, assim como os humanos, têm sentimentos e merecem ser respeitados — avalia Almeida.
Mônica Almeida acredita que para haver um controle populacional efetivo de cães e gatos é preciso muito mais do que apenas a existência de abrigos. Para ela, o método de eliminação-captura não é a maneira mais eficiente para solucionar tal problema, até porque vai contra a promoção da guarda responsável.
— É fundamental que os órgãos públicos e a população percebam que a eliminação de um problema só é possível quando se inicia pela base, ao contrário, torna-se uma situação cíclica. É fato que a causa do aumento do abandono de animais nas ruas é a falta da guarda responsável e do modo como as pessoas enxergam os animais, como objetos que podem ser descartados quando as incomodam. Para obter resultados concretos, o controle populacional deve ser realizado a partir destes cinco pilares: controle reprodutivo, registro e identificação, adoção responsável, educação em posse responsável e legislação — afirma Almeida.
Em 2002, um levantamento estatístico feito pelo CCZ de São Paulo comprova que o custo de uma campanha de esterilização é mais baixo do que a captura-eliminação. O primeiro processo custaria em torno de R$30,75 por animal, já o segundo teria um custo de R$130,00.
| Método 01 | Método 02 |
| Captura | Esterilização |
| Manutenção | Registro |
| Eutanásia | Vacinação |
| Destino de cadáveres | Desverminação |
| Educação | |
| Custo: R$ 130,00/animal | Custo: R$30,75/animal |
— Antes eu nem ligava como iam ficar os animais, simplesmente saia nas ruas e catava todos, mas não sem antes fazer um show. Se eles estavam quietos, eu e meus colegas os assustávamos para ver quem era o melhor laçador. Jogava de qualquer jeito no carro e quando eu pegava gatos que me irritavam jogava junto com os cães só de maldade. Hoje eu percebo que estava totalmente errado, que não devia ser daquele jeito meu trabalho e nem a minha atitude. Hoje os meus colegas de trabalho e a população me respeitam, coisa que não acontecia. Vejo que minhas atitudes violentas faziam mal para os animais e para mim também – Roberval Andrade (Camaragibe – PE).
— Eu tenho 56 anos e quase estou para me aposentar. Quando começaram os casos de Leishmaniose aqui, eu fui escolhido para ajudar a eliminar os cães. Eu achava que era certo o modo como fazíamos. Os cães eram mortos com pauladas, pedradas ou pedaço de cano, com o que tivéssemos na mão. Hoje com o que aprendi nesse curso, olho para trás e me envergonho me arrependo, mas Deus abriu uma nova porta para mim e eu atravessei, nunca mais volto para o passado – João Vasconcellos (Vitória -ES).
O curso FOCA em 2009 traz como novidade a realização de mais aulas práticas. Agora os funcionários dos CCZs terão mais tempo para se certificar de que aprenderam todas as técnicas de manejo etológico. Isso permite que eles tenham maior confiança para realizar a remoção dos animais de modo mais tranquilo e humanitário.
O conteúdo programático do curso ainda conta com aulas teóricas sobre: abordagem, aproximação e contenção do animal, relacionamento com a comunidade, apresentação e modo de utilização dos equipamentos apropriados, comportamento de cães e gatos, legislação, elo entre violência humana e a crueldade contra animais, zoonoses, dinâmica populacional e o controle, stress laboral, resgate da imagem do profissional que atua nos CCZs, a importância do manejo humanitário e de métodos menos agressivos, como o uso do laço de captura em vez da cordinha.
O próximo curso FOCA está previsto para o segundo semestre de 2009. Para levar o curso FOCA para sua cidade, o CCZ ou a secretaria de saúde do estado ou do município deve entrar em contato com o Instituto Técnico de Educação e Controle Animal e falar com Dr. Rita pelo telefone (11) 8496-2499 ou com a WSPA pelo e-mail wspabrasil@wspabr.org.
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